Domine tudo o que você quiser
Durante séculos, a Europa viveu encolhida dentro de si mesma. Castelos fechados. Medo da peste. Medo de Deus. Medo do novo. A Idade Média tinha uma obsessão: sobrevivência. Corpos fracos, mentes dominadas, pensamentos aprisionados. As pessoas não viviam e nem criavam, apenas tentavam não morrer.
O mundo era pequeno, escuro e estreito. A Europa medieval começou a se destruir quando três coisas aconteceram ao mesmo tempo.
Primeiro, a Peste Negra. Metade da população morreu. A Igreja, que dizia ter todas as respostas, não conseguiu impedir nada. As pessoas começaram a duvidar da autoridade religiosa e a questionar velhas certezas.
Depois, o crescimento das cidades. O comércio explodiu, surgiram mercadores ricos e a economia mudou. Essa nova classe queria arte, conhecimento e inovação — e começou a financiar tudo isso. A vida deixou de girar só em torno de castelos e igrejas.
Por fim, a queda de Constantinopla. Quando a cidade caiu em 1453, muitos intelectuais fugiram para a Europa trazendo livros e ideias da Grécia Antiga. De repente, conhecimentos que estavam esquecidos há séculos voltaram à cena: filosofia, matemática, anatomia, astronomia.
Esses três fatores destruíram a ordem medieval e abriram espaço para algo totalmente novo surgir: Renascimento. E foi nesse ambiente de mudança, dúvida e novas ideias que os homens polímatas apareceram.
Antes, tudo girava em torno do divino. Agora uma nova ideia surgia como um raio: e se o ser humano fosse a obra-prima da criação?

Essa frase recolocou o homem como protagonista. O centro do palco. Responsável pelas próprias ideias, criações, escolhas. Isso virou o mundo de cabeça para baixo.
Na Idade Média, tudo girava em torno de Deus, pecado e obediência. No Renascimento, o foco voltou para o indivíduo, sua razão, sua curiosidade, seu corpo, sua arte, sua capacidade de criar.
Essa mudança psicológica libertou as pessoas para pensar por conta própria. Surgiu a ideia de que o ser humano podia, e devia, desenvolver mente, corpo e espírito em seu potencial máximo.
Assim começaram homens como Leonardo da Vinci, Michelangelo, Galileo Galilei.

O que é um Polímata
Um polímata é alguém que tem expertise real em vários campos diferentes. Pense em Leonardo da Vinci unindo arte, engenharia e anatomia. Ou nos tempos modernos, pessoas como Johnny Kim, Navy SEAL, médico e astronauta.
A maioria das pessoas vai te dizer para se tornar um polímata lendo muito, seguindo sua curiosidade e conectando ideias de áreas diferentes.
Mas esse conselho não funciona.
“Lidar com múltiplos interesses” não é uma abordagem tão boa.
O cérebro não conecta naturalmente conhecimentos de áreas diferentes sem uma base sólida.
Vamos entender isso profundamente.
1- Aprofunde-se em um Campo
Veja Joe Rogan.
Ele não tentou ser comediante, lutador, comentarista esportivo e o maior podcaster do mundo ao mesmo tempo.
Primeiro, ele se aprofundou em uma única base: disciplina física e mental.
Décadas de artes marciais forjaram presença, coragem, ritmo, foco e humildade.
Essa profundidade virou alavanca.
Ele transformou a confiança da luta em poder de palco na comédia stand-up.
Depois uniu técnica de combate com comunicação afiada para se tornar o comentarista mais respeitado do UFC.
E, por fim, levou tudo isso para criar o maior podcast da história: o Joe Rogan Podcast.
A curiosidade do lutador, a comunicação do comediante e a clareza do analista se encontram no Joe Rogan Experience.
Ele não entrevista pessoas. Ele explora a condição humana.
Polímata vs. Curioso
Um polímata tem expertise real em vários campos.
Um curioso tem conhecimento superficial em vários campos.
Essa diferença importa muito.
Quando você realmente fica bom em algo, você não está apenas lembrando fatos.
Você está construindo padrões no cérebro.
Esses padrões permitem que você veja situações e saiba instintivamente o que fazer.
Um jogador de futebol sabe o que fazer ao receber a bola.
Um editor experiente bate o olho e sabe os erros que precisam ser corrigidos.
A maior parte da expertise não pode ser ensinada com palavras.
Se você perguntar a um especialista como ele faz o que faz, ele não consegue explicar bem.
Ele diz “você pega o jeito”.
E isso é real. Expertise é intuição refinada.
Construindo sua Primeira Expertise
Passe tempo real construindo expertise real no seu primeiro campo.
Não é “li alguns livros”.
É sentir quando algo está certo ou errado, desenvolver intuição, reconhecer padrões.
Isso parece lento.
Você pode pensar: “não estou sendo um polímata ainda”.
Mas é justamente aqui que um polímata nasce.
Quando você domina seu primeiro campo, você aprende o processo de ficar bom.
E isso te permite aprender o segundo campo cerca de 40% mais rápido, porque você já sabe:
– como expertise se sente
– como atravessar as partes difíceis
– como construir profundidade
Isso separa polímatas de colecionadores de hobbies.
A Economia da Atenção e a Falta de Profundidade
Hoje quase ninguém fica bom em nada.
Por quê?
É igual ao que escrevi na última carta: menos distrações, menos compromissos, mais presença.
Só que vivemos o oposto.
A sensação constante de “estar perdendo algo”.
Tudo chama sua atenção.
Tudo fragmenta seu foco.
E isso diminui a profundidade de tudo que você tenta criar.
Para você ter mais clareza, analise esse gráfico que está na aula 006 da Comunidade Create.

A prioridade número 1 deve ser sua habilidade em fazer dinheiro. No meu caso, comecei a estudar a escrita. Como eu poderia prender atenção com a mensagem que eu queria transmitir? Comecei a estudar tudo que envolvia transformar minha escrita.
A prioridade número 2: qual outra habilidade eu posso desenvolver e ficar bom também? Posso tirar 1h por dia para dominar a psicologia? Estudar Skinner? Freud?
A prioridade número 3: quais esportes posso implementar? Ficar bom na corrida? Surf? Sempre tenha um treinamento híbrido em 2026.
Trabalhe nessas três habilidades diariamente. Mas pela manhã, no seu pico máximo de energia, foque na primeira habilidade. Algo que esteja alinhado ao seu projeto pessoal.
2- Estudo da 3M e Conectando Ideias
Quando você tem profundidade, o próximo desafio é fazer o conhecimento de um campo te ajudar em outro. Seu cérebro não faz isso automaticamente. Você precisa forçar. É isso que vamos entender agora.
Deixa eu te contar sobre um estudo que mudou completamente como empresas pensam sobre inovação. Pesquisadores da 3M, sabe, a empresa que faz Post-its e milhares de outros produtos, queriam descobrir quem eram seus melhores inventores. Eles olharam todas as patentes e acompanharam o impacto comercial real de cada inventor. Eles encontraram três tipos de inventores.
Primeiro, especialistas: pessoas que iam muito fundo em uma área tecnológica específica. Eles tinham toneladas de patentes, mas todas na mesma área estreita.
Segundo, generalistas: pessoas que trabalhavam em várias áreas tecnológicas diferentes, mas nunca iam fundo em nenhuma.
Especialistas e generalistas contribuíam, mas nenhum era incrível.
Então eles encontraram um terceiro tipo que chamaram de polímatas. Essas pessoas tinham profundidade em uma área central, mas também trabalhavam em dezenas de diferentes classes tecnológicas, muito mais que os generalistas.
Aqui está o que chocou eles: os polímatas eram os únicos capazes de criar inovações que eram tecnicamente sólidas e comercialmente bem-sucedidas. Os especialistas criavam tecnologia boa que ninguém comprava. Os generalistas criavam muitas ideias que não eram tecnicamente boas. Só os polímatas faziam a ponte entre os dois.
Por quê? Porque os polímatas estavam fazendo algo que os outros não faziam. Eles estavam constantemente comparando padrões entre áreas diferentes.
Quando você só conhece profundamente um campo, você vê problemas por aquela lente única.
Quando você conhece vários campos superficialmente, você não consegue resolver problemas complexos.
Mas quando você conhece profundamente um campo e já trabalhou em muitos outros, você consegue pegar um padrão do campo A e aplicar para resolver um problema no campo B.
Esse é o superpoder dos polímatas. Eles são “casadores de padrões” entre domínios.
3- DSSS (Tim Ferriss)
Pense no Tim Ferriss. Ele aprende idiomas, habilidades físicas e negócios rapidamente porque usa sempre o mesmo método, independentemente da área. Ele chama esse método de DSSS: deconstruct, select, sequence, stakes.
Ele criou esse framework ao comparar como aprendia diferentes habilidades e perceber que sempre seguia os mesmos passos.
- Deconstruct – Deconstruir
Quebra a habilidade em partes pequenas.
Exemplo: aprender uma língua = vocabulário básico + gramática mínima + frases essenciais. - Select – Selecionar
Escolhe só o que realmente importa.
Ferriss busca os 20% que geram 80% dos resultados. - Sequence – Sequenciar
Organiza as partes na ordem certa.
Aprender fora de ordem deixa tudo mais difícil e lento. - Stakes – Consequência
Cria pressão externa para não desistir.
Exemplos: anunciar publicamente o desafio, colocar dinheiro em jogo ou marcar uma data de prova.
Toda vez que aprender algo novo, encontre imediatamente dois ou três exemplos de áreas completamente diferentes que usam a mesma ideia. E eu quero dizer completamente diferentes. Não escolha exemplos parecidos. Force-se a conectar campos totalmente distantes.
Exemplo: digamos que você aprendeu sobre estoicismo. Como você pode conectar os ensinamentos estoicos quando for começar um negócio? Escreva o que se alinha e por que o padrão é o mesmo. Seu cérebro cria conexões entre as áreas em vez de mantê-las separadas.
Algo que eu sempre treinei é conectar esses assuntos com a própria escrita das newsletters. Você que me acompanha há um tempo aqui deve saber que minhas cartas conectam assuntos da psicologia, filosofia, business etc.
4- Productive Failure
Isso vai soar louco, mas as evidências são muito fortes. E se a melhor forma de aprender algo for tentar e falhar antes que alguém te ensine como? Tipo, tentar resolver problemas de matemática antes de aprender as fórmulas, ou tentar falar espanhol antes de estudar gramática. Parece idiota, certo? Você só vai falhar e se sentir mal.
Exceto que não é isso que acontece.
Existe algo chamado “falha produtiva”, que cientistas já estudaram muito. Um pesquisador fez 53 estudos diferentes com milhares de estudantes.
Aqui está o que encontraram: estudantes que lutavam com problemas difíceis antes de serem ensinados iam muito melhor do que estudantes que apenas estudavam primeiro.
Quanto melhor? Cerca de 13 pontos percentuais melhor nas provas. E isso durava, eles ainda iam melhor 7 semanas depois. Ainda mais louco: essa luta pode funcionar quase duas vezes melhor do que um professor bom.
Por que isso funciona?
Quando você luta e falha, seu cérebro fica super consciente do que você não sabe. Ele cria lacunas no seu conhecimento que seu cérebro quer preencher.
Quando o ensino finalmente vem, seu cérebro está procurando ativamente pelas peças que faltam. Você não está só ouvindo passivamente. Você está caçando respostas.
Pense nisso. Você já ficou preso em um problema por horas, completamente travado, e então alguém te mostra a solução? Você nunca esquece aquela solução. Ela encaixa de um jeito que não encaixaria se tivessem te mostrado antes.
Isso é gigantesco para polímatas porque ajuda o conhecimento a se transferir entre áreas. Lembra como o conhecimento não pula naturalmente de um campo para outro? A luta cria os ganchos que tornam isso possível.
Existe uma outra versão ainda mais estranha: fazer um teste sobre algo que você ainda não aprendeu. Parece estúpido, certo? Por que se testar sobre algo que você não sabe?
Mas um estudo mostrou que estudantes que faziam testes práticos antes de estudar iam 49% melhor do que os estudantes normais, quase 50% melhor só por se testarem sobre algo que nunca tinham visto.
Mesmo motivo: cometer erros ativa a curiosidade no seu cérebro. Quando o conteúdo real chega, seu cérebro sabe exatamente o que procurar.
Dificuldades Desejáveis
Isso se conecta a algo chamado “dificuldades desejáveis”. Coisas que tornam o aprendizado mais difícil no curto prazo, mas muito mais forte no longo prazo.
Aqui estão três que ajudam polímatas:
Primeiro, intercalação.
Em vez de praticar uma habilidade até ficar bom, misture várias habilidades na mesma sessão.
Então, se você está aprendendo escrita, não estude só pontuação 1h e depois vá para adjetivos. Traga psicologia da atenção, storytelling, estilo da própria voz, tudo em uma sessão.
Segundo, espaçamento.
Em vez de estudar tudo de uma vez, distribua o aprendizado ao longo de dias e semanas.
Quando você coloca intervalos entre os estudos, seu cérebro é obrigado a lembrar do conteúdo, e esse esforço fortalece a memória.
O ponto chave é que, ao estudar em momentos diferentes, você também lembra do conteúdo em situações diferentes. Isso torna o conhecimento mais flexível e, por isso, muito mais fácil de aplicar em outras áreas.
Terceiro, tente responder antes de aprender.
Tente resolver problemas ou explicar coisas antes de ver a resposta certa.
Mesmo quando você erra, tentar antes faz você aprender muito melhor quando finalmente vê a versão correta.
Isso pode ser aplicado até para começar um negócio de uma pessoa só na internet sem saber o mínimo sobre business. Ou se inscrever em uma maratona sem ter corrido 5 km.
Se colocar em ação faz você evoluir mais rápido do que esperar ter todas as ferramentas necessárias.
Recapitulando
Vamos recapitular o que você realmente precisa fazer.
Primeiro, vá fundo antes de ir amplo.
Passe tempo real criando expertise real em um campo, não conhecimento superficial. Reconhecimento de padrões e sensibilidade.
Segundo, use comparação.
Toda vez que aprender algo, imediatamente encontre dois ou três exemplos de áreas completamente diferentes que usam a mesma ideia.
Terceiro, abrace a dificuldade.
Teste-se antes de aprender. Lute com problemas antes de ver as respostas.
Agora, executar isso consistentemente exige hábitos de alta performance.
até 2030 acredito que eu me considere um polímata. Para isso, preciso de profundidade. Meu aprendizado acelera a medida que eu crio o que amo. E quero te ensinar a fazer o mesmo.
Se você quer transformar propósito e criação em liberdade, entre na aula do dia 6 de dezembro. Segunda feira irá aumentar o preço.
Crie mais.